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Roberto Shinyashiki - "Cuidado com os burros motivados"
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Roberto Shinyashiki, 53
anos, é psiquiatra e psicoterapeuta
• Já vendeu 6,5 milhões de exemplares de livros como
Amar pode dar certo e O sucesso
...é ser feliz
•
Presidente da Editora Gente, conclui este ano o doutorado
em administração de
..empresas na USP
• Católico praticante, freqüenta templos budistas e admira mestres da Índia como Osho,
...Sai Baba e Ramesh
•
Apaixonado por guitarra, apresenta-se uma vez por
mês com o grupo Dinossauros
..Rock Band em um bar paulistano.
Observador contumaz das manias humanas,
Roberto Shinyashiki está
cansado dos jogos de aparência que tomaram conta das
corporações e das famílias. Nas entrevistas de emprego,
por exemplo, os candidatos repetem o que imaginam
que deve ser dito. Num teatro constante, são todos
felizes, motivados, corretos, embora muitas vezes
pequem na competência. Dizem-se perfeccionistas:
ninguém comete falhas, ninguém erra. Como Álvaro de
Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) em Poema em
linha reta, o psiquiatra não compartilha da síndrome
de super-heróis. “Nunca conheci quem tivesse levado porrada na vida (...) Toda
a gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve
um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, nunca foi
senão príncipe”, dizem os versos que o inspiraram
a escrever Heróis de verdade (Editora Gente, 168 págs.,
R$ 25). Farto de semideuses,
Roberto Shinyashiki faz
soar seu alerta por uma mudança de atitude. “O mundo
precisa de pessoas mais simples e verdadeiras.
ISTOÉ
– Quem são os heróis de verdade?
Shinyashiki – Nossa sociedade
ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa
ser diretor de uma multinacional, ter carro importado,
viajar de primeira classe. O mundo define que poucas
pessoas deram certo. Isso é uma loucura. Para cada
diretor de empresa, há milhares de funcionários que
não chegaram a ser gerentes. E essas pessoas são tratadas
como uma multidão de fracassados. Quando olha para
a própria vida, a maioria se convence de que não valeu
a pena porque não conseguiu ter o carro nem a casa
maravilhosa. Para mim, é importante que o filho da
moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar
da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e
transparentes. Heróis de verdade são aqueles que trabalham
para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar
os outros. São pessoas que sabem pedir desculpas e
admitir que erraram.
ISTOÉ
– O sr. citaria exemplos?
Shinyashiki – Dona Zilda
Arns, que não vai a determinados programas de tevê
nem aparece de Cartier, mas está salvando milhões de pessoas. Quando eu nasci,
minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão
aos sete anos, empregado em uma farmácia. Morávamos
em um bairro miserável
em São Vicente
(SP)
chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis. Conseguiram
criar seus quatro filhos, que hoje estão bem. Acho
lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito
“100% Jardim Irene”. É pena que a maior parte das
pessoas esconda suas raízes. O resultado é um mundo
vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da
população americana. Em países como Japão, Suécia
e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por
que tanta gente se mata? Parte da culpa está na depressão
das aparências, que acomete a mulher que, embora não
ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem
que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir
realizado, mas o faz se sentir seguro.
ISTOÉ
– Qual o resultado disso?
Shinyashiki – Paranóia
e depressão cada vez mais precoces. O pai quer preparar
o filho para o futuro e mete o menino em aulas de
inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos
a depressão aparece. A única coisa que prepara uma
criança para o futuro é ela poder ser criança. Com
a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos
dos pais estão roubando a infância dos filhos. Essas
crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas. Aliás, a hipocrisia
já predomina no mundo corporativo.
ISTOÉ
– Por quê?
Shinyashiki – O mundo corporativo
virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo
de recrutamento. É contratado o sujeito com mais marketing
pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima
do que a competência. Sou presidente da Editora Gente
e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas
perguntas com uma ou duas palavras. Disse que ela
não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu
estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu
que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa.
Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade,
e não de relações públicas. Contratei na hora. Num
processo clássico de seleção, ela não passaria da
primeira etapa.
ISTOÉ
– Há um script estabelecido?
Shinyashiki – Sim. Quer
ver uma pergunta estúpida feita por um presidente
de multinacional no programa O aprendiz? “Qual é seu
defeito?” Todos respondem que o defeito é não pensar
na vida pessoal: “Eu mergulho de cabeça na empresa.
Preciso aprender a relaxar.” É exatamente o que o
chefe quer escutar. Por que você acha que nunca alguém
respondeu ser desorganizado ou esquecido? É contratado
quem é bom em conversar,
em
fingir. Da
mesma forma, na maioria
das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo
do poder.
O vice-presidente de uma das maiores
empresas do planeta me disse: “Sabe, Roberto, ninguém
chega à vice-presidência sem mentir.” Isso significa
que quem fala a verdade não chega a diretor?
ISTOÉ
– Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal
preparadas?
Shinyashiki – Ele cria
pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se
preparar, que não têm capacidade de ler um livro até
o fim e não se preocupam com o conhecimento. Muitas
equipes precisam de motivação, mas o maior problema
no Brasil é competência. Cuidado com os burros motivados.
Há muita gente motivada fazendo besteira. Não adianta
você assumir uma função para a qual não está preparado.
Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter
morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer
que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar
um caso para o qual eu não estava preparado. Hoje,
o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma
neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não
acordou para isso.
ISTOÉ
– Está sobrando auto-estima?
Shinyashiki – Falta às
pessoas a verdadeira auto-estima. Se eu preciso que
os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima
está baixa. Antes, o ter conseguia substituir o ser.
O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar
o respeito do garçom. Hoje, como as pessoas não conseguem
nem ser nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer.
As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece
que acreditam. E poucos são humildes para confessar
que não sabem. Há muitas mulheres solitárias no Brasil
que preferem dizer que é melhor assim. Embora a auto-estima
esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.
ISTOÉ
– Por que nos deixamos levar por essa necessidade
de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?
Shinyashiki – Isso vem
do vazio que sentimos. A gente continua valorizando
os heróis. Quem vai salvar o Brasil? O Lula. Quem
vai salvar o time? O técnico. Quem vai salvar meu
casamento? O terapeuta. O problema é que eles não
vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que
dizia: “Quando você quiser entender a essência do
ser humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise
de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham.”
Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também
tem diarréia. Ela certamente já teve dor de dente,
já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram
certo. A gente tem de parar de procurar super-heróis.
Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo
o considera um fracassado.
ISTOÉ
– O conceito muda quando a expectativa não se comprova?
Shinyashiki – Exatamente.
A gente não é super-herói nem superfracassado.
A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de
tristeza. Não há nada de errado nisso. Hoje, as pessoas
estão questionando o Lula em parte porque acreditavam
que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram.
A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade
pela própria vida é delas.
ISTOÉ
– É comum colocar a culpa nos outros?
Shinyashiki – Sim. Há uma
tendência a reclamar, dar desculpas e acusar alguém.
Eu vejo as pessoas escondendo suas humanidades. Todas
as empresas definem uma meta de crescimento no começo
do ano. O presidente estabelece que a meta é crescer 15%, mas, se perguntar a ele em que está baseada
essa expectativa, ele não vai saber responder. Ele
estabelece um valor aleatoriamente, os diretores fingem
que é factível e os vendedores já partem do princípio
de que a meta não será cumprida e passam a buscar
explicações para, no final do ano, justificar. A maioria
das metas estabelecidas no Brasil não leva em conta
a evolução do setor. É uma chutação total.
ISTOÉ
– Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas
coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?
Shinyashiki – Tenho minhas
angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha
vida fluir facilmente. Há várias coisas que eu queria
e não consegui. Jogar na Seleção Brasileira, tocar
nos Beatles (risos). Meu
filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e
hoje tem 25 anos. Com uma criança especial, eu aprendi
que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la
o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que
fosse. Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas
que fiz deram certo. O resto foram apostas e erros.
Dia desses apostei na edição de um livro que não deu
certo. Um amigão me perguntou: “Quem decidiu publicar
esse livro?” Eu respondi que tinha sido eu. O erro
foi meu. Não preciso mentir.
ISTOÉ
– Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da
aparência?
Shinyashiki – O primeiro
passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem
a essa tirania e tentar evitá-las. São três fraquezas.
A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar
se sentir amada e a terceira é buscar segurança. Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram.
Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo
do aluno. Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards.
Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam
os alunos a serem covers do Bill Gates. O que as escolas deveriam fazer é ajudar
o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.
ISTOÉ
– Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?
Shinyashiki – A sociedade
quer definir o que é certo. São quatro loucuras da
sociedade. A primeira é instituir que todos têm de
ter sucesso, como se ele não tivesse significados
individuais. A segunda loucura é: “Você tem de estar
feliz todos os dias.” A terceira é: “Você tem que
comprar tudo o que puder.” O resultado é esse consumismo
absurdo. Por fim, a quarta loucura: “Você tem de fazer
as coisas do jeito certo.” Jeito certo não existe.
Não há um caminho único para se fazer as coisas. As
metas são interessantes para o sucesso, mas não para
a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado
de espírito. Tem gente que diz que não será feliz
enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes
justamente por causa do casamento. Você precisa ser
feliz tomando sorvete, levando os filhos para brincar.
ISTOÉ
– O sr. visita mestres na Índia com freqüência. Há alguma
parábola que o sr. aprendeu com eles que o ajude a agir?
Shinyashiki – Quando era
recém-formado
em
São Paulo
, trabalhei em um hospital
de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove
ou dez pacientes.
Eu sempre procurei conversar com eles
na hora da morte. A maior parte pega o médico pela
camisa e diz: “Doutor, não me deixe morrer. Eu me
sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero ser feliz.”
Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada.
Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas
pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender
por não ter aplicado o dinheiro
em imóveis. Uma
história que aprendi na Índia me ensinou muito. O
sujeito fugia de um urso e caiu em um barranco. Conseguiu
se pendurar em algumas raízes. O urso tentava pegá-lo.
Embaixo, onças pulavam para agarrar seu pé. No maior
sufoco, o sujeito olha para o lado e vê um arbusto
com um morango. Ele pega o morango, admira sua beleza
e o saboreia. Cada vez mais nós temos ursos e onças
à nossa volta. Mas é preciso comer os morangos.
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